
Um Manifesto de Bichos

Saudações ancestrais a todas as borboletas, bichos-preguiça, arraias, cobras, golfinhos, tamanduás-bandeiras, saruês, tartarugas, tucanos, baleias, onças, cavalos-marinhos, caranguejos, polvos, peixes, tatus, caracóis, garças, tartarugas marinhas e todos os outros que vivem nas terras e mares do povo indígena Pataxó.
A memória indígena é milenar, ela pertence ao tempo em que os bichos falavam a língua pataxó, macuxi, guarani… As histórias contadas ao longo das gerações narram o passado ancestral que reconhece quando os bichos podiam se transformar ora em corpo de gente, ora em corpo de bicho.
Como antepassados, foram eles e elas que começaram as aventuras no mundo da terra, do céu e das águas. E foi deles que muitos povos se originaram.
É uma tradição honrar os que vieram antes da gente, e os bichos são essas pessoas ancestrais que primeiro pisaram, voaram e nadaram neste território de Abya Yala — colonialmente chamado de Américas.
Os bichos nos ensinam a cantar, a dançar, a ter coragem, a ser espertos, e a lidar com os sentimentos de ciúme, de paixão e, ainda, com a morte e a vida…
Quando morrem, a vida dos bichos não acaba. Eles se transformam em espíritos da floresta. Por isso, os povos indígenas são os legítimos representantes da luta animal. Sem território indígena, não há proteção e preservação animal e ambiental.
O Caju de Leitores, em firme solidariedade ao povo indígena Pataxó, propõe a elaboração coletiva de "Um manifesto de bichos" para protestar contra todas as ameaças e violações de direitos políticos sofridos agora e nestes cinco séculos.
Quando um povo indígena é atacado, um território é atacado, os bichos são atacados… as vítimas são o ecossistema-mundo, que sentirá o impacto de imediato — como podemos ver com as profundas alterações climáticas.
Os povos indígenas entendem de estabilidade e permanência, pois aprenderam com os ancestrais animais a coexistir.
Durante a 5ª edição do Festival Caju de Leitores, na Aldeia Xandó, cada roda de conversa com escritores indígenas, crianças, educadores e artistas vai alimentar esse protesto. E depois do evento, vamos publicar a versão final deste “Um Manifesto dos Bichos”. Será uma costura de tudo o que foi dito, uma escrita a muitas mãos de um documento vivo, nascido da oralidade e da escuta.
Por meio dos livros, da literatura e das histórias contadas podemos fortalecer a luta em defesa dos bichos que continuam nos ensinando que amar a floresta é um ato ancestral.
Por Trudruá Macuxi, poeta, escritora, palestrante, pesquisadora de literatura indígena, doutora em Teoria da Literatura e curadora do Caju de Leitores.




Parceria com artistas e escolas indígenas

Pelo terceiro ano consecutivo, o artista Tucunã Pataxó assina a identidade visual do Festival Caju de Leitores. A criação foi inspirada em uma oficina de arte realizada com estudantes do 7º ano da Escola Indígena Xandó.
A partir dessa troca de saberes e expressões criativas, surgiu o conceito visual desta edição que homenageia os bichos das terras e dos mares do povo indígena Pataxó
Mais uma vez a Escola Indígena Xandó mais uma vez assume papel central na acolhida dos participantes do Festival Caju de Leitores, recebendo em seu espaço escolas de diversas aldeias da região, bem como instituições de ensino superior universitário do município.
Com a inclusão oficial do festival no calendário da educação de Porto Seguro, espera-se também a participação ampliada de escolas não-indígenas, fortalecendo os vínculos entre saberes tradicionais e acadêmicos e promovendo uma vivência plural da literatura indígena entre estudantes de diferentes origens.

