top of page

Um Manifesto de Bichos

​

Pedimos licença à Oca Tururim, às lideranças indígenas deste território Maria Coruja, Sabará, Sairi Pataxó, Cacique Marrudo, Vice-cacique João Cunha, Roberta Pataxó, Pajé Ouriço, Bigodinho, Tigê. 

​

Saudações ancestrais a todos os nossos bichos (hoykaê) as arraias, baleias, borboletas, bichos-preguiça, cobras, golfinhos, jacaré, tamanduás-bandeiras, saruês, tartarugas, tucanos, onças, cavalos-marinhos, caranguejos, polvos, peixes, tatus, caracóis, garças, tartarugas marinhas e todos os outros que vivem nas terras do povo indígena Pataxó.

 

Tchururu tchuru 

Vem onça pintada 

caminha com os passarinhos 

eu nunca estou sozinho 

Nos meios das mata 

é a festa do povo Pataxó

Os bichos são nossos ancestrais, por isso deles devemos cuidar. Quem tem parente, cuida, ama, protege e brinca. 

​

A história indígena é a história dos bichos da mata, ou seja, é a história da terra sagrada (Hãhãw Mirawê) e dos povos tradicionais que nela habitam ancestralmente. As histórias contadas ao longo das gerações narram a cosmovisão, de quando os bichos, no princípio de tudo, eram gentes e agentes da transformação. 

 

Hoje, os pajés, os rezadores, (īgīhóbóku) e todos os povos indígenas que conhecem e respeitam essa memória continuam consagrando-a na tradição e na cultura. 

​

Não existe a história de um povo indígena apartada dos bichos e seus territórios. 

​

Essa sensibilidade de reconhecer o primeiro espírito dos bichos, constantemente atacada pela modernidade, é um projeto indígena cujo tripé baseia-se no ecossistema territorial, espiritual e educacional. Dessa forma, os povos indígenas protegem seus territórios porque neles reside a vida espiritual de onde vêm as lições  dos seus antepassados – de dentro da mata, de dentro do mar, de dentro da floresta. 

​

A vida dos bichos está no tempo passado, onde radica-se a sua origem. Mas o passado indígena não morreu, ele vive todos os dias quando suas histórias são contadas pelos avós, quando suas músicas são cantadas pelas crianças, e dançadas como toré pelos jovens, adultos e velhos. 

​

A educação indígena começa quando as crianças aprendem a nomear os bichos, as plantas e a diversidade da floresta.

 

Não existe hierarquia entre as gentes (verdadeiras) e os bichos (gentes animais). Essa forma de viver vem prevalecendo, não obstante a modernidade, não obstante o capitalismo, não obstante a extinção dos bichos pela extração ilegal de madeira, pelo garimpo, pelos desmatamentos. 

​

A vida dos bichos é como a vida indígena, existe a tradição e a transformação. Se os pássaros cantam e repetem cantos tradicionais, também eles inventam novos, como fazemos em cada momento de manifestação histórica para nossos povos. Os bichos são sujeitos sencientes. 

​

Se na cidade é o trabalho, por meio do relógio e do calendário, que rege a vida das pessoas, este manifesto convoca a viver o tempo dos animais, que acreditamos ser a medida mais certa de viver: o tempo dos bichos é o tempo da vida. 

​

Da mata nascemos, nela vivemos e para ela retornaremos. 

​

É uma tradição honrar os que vieram antes da gente, e os bichos são essas gentes ancestrais que primeiro pisaram, voaram e nadaram neste território de Abya Yala – colonialmente chamado de Américas. 

​

Não existe veneno mais forte que a colonização. Foi colonizando o nosso modo de vida que inventaram o progresso e a civilização anti-indígena, onde o marco espacial e temporal iniciava-se a partir da vida indígena: 

​

Da mata selvagem para a cidade civilizada 

Da vida com os bichos para a vida sem eles 

Da língua dos povos indígenas para as línguas ocidentais, onde não há bichos 

Dos bichos parentes e gentes para os bichos irracionais 

De povos indígenas soberanos para povos selvagens que agem como bichos 

De sujeitos livres e sábios à sujeitos qualificados negativamente com características de bichos selvagens 

​

Todas essas formas de colonização são desonestas e nós nunca acreditamos no seu poder. Mesmo que isso tenha ferido ao longo dos séculos, hoje erguemo-nos para reafirmar o orgulho e o direito de termos os bichos como nossos parentes. 

​

Que fique decretado aos outros povos: saber a língua dos bichos, conhecer a vida dos bichos, compartilhar o território com eles é uma honra hoje, e sempre será. 

​

São os bichos que nos ensinam a cantar, a dançar, a ter coragem, a nos sentirmos protegidos, a amar, a ser espertos, a lidar com os sentimentos de ciúme, de paixão, de companheirismo e, ainda, com a morte… 

​

Quando morrem, a vida dos bichos não acaba. Eles se transformam em espíritos da floresta. Por isso, os povos indígenas são os legítimos representantes da luta animal. Sem território indígena, não há proteção e preservação animal e ambiental.

 

O Caju de Leitores, em firme solidariedade ao povo indígena Pataxó, propôs a elaboração coletiva de "Um manifesto de bichos" para protestar contra todas as ameaças e violações de direitos políticos sofridos agora e nestes cinco séculos. 

​

Quando um povo indígena é atacado, um território é atacado, os bichos são atacados… as vítimas são o ecossistema-mundo, que sente o impacto de imediato — como podemos ver com as profundas alterações climáticas. 

​

Os povos indígenas entendem de estabilidade e permanência, pois aprenderam com os ancestrais animais a coexistir. Como diz Mandi Pataxó “a água é nosso sangue, a terra é o nosso corpo, a floresta é o nosso espírito”. 

Este manifesto, elaborado na 5ª edição do Festival Caju de Leitores, na Aldeia Xandó, a partir das rodas de conversa com escritores indígenas, crianças, educadores e artistas atesta esse protesto. Este documento é vivo, escrito a muitas mãos, nascido da oralidade e da escuta. 

​

Por meio dos livros, da literatura e das histórias contadas podemos fortalecer a luta em defesa dos bichos que continuam nos ensinando que amar a floresta é um ato ancestral.

 

Sou Pataxó eu sou raiz a minha aldeia é na beira do mar .

Com meu povo eu sou feliz e juntos vamos cantar.

No canto das araras agradecendo a mãe Tanara passarinho cantador 

Vai voando sobre o mar busca força e união fortalecendo a cultura com amor e gratidão.

Aonde a piaba nada eu vou nadar, aonde a piaba nada eu também sei nadar.

Por Trudruá Macuxi, poeta, escritora, palestrante, pesquisadora de literatura indígena, doutora em Teoria da Literatura e supervisora de curadoria no Caju de Leitores.

tartaruga.png
2.png
limpe-o-fundo-de-papel-de-parede-bege-simples.jpg

Parceria com artistas e escolas indígenas

Caju - Tucunã Pataxó.png

Pelo terceiro ano consecutivo, o artista Tucunã Pataxó assina a identidade visual do Festival Caju de Leitores. A criação foi inspirada em uma oficina de arte realizada com estudantes do 7º ano da Escola Indígena Xandó.

 

A partir dessa troca de saberes e expressões criativas, surgiu o conceito visual desta edição que homenageia os bichos das terras e dos mares do povo indígena Pataxó

​

Mais uma vez a Escola Indígena Xandó mais uma vez assume papel central na acolhida dos participantes do Festival Caju de Leitores, recebendo em seu espaço escolas de diversas aldeias da região, bem como instituições de ensino superior universitário do município.

​

Com a inclusão oficial do festival no calendário da educação de Porto Seguro, espera-se também a participação ampliada de escolas não-indígenas, fortalecendo os vínculos entre saberes tradicionais e acadêmicos e promovendo uma vivência plural da literatura indígena entre estudantes de diferentes origens.​​

​

1.png
bottom of page