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Maria Coruja e a história da resistência Pataxó
Cantora, compositora, sambadeira, artesã, benzedeira, mestre de cantigas e guardiã da memória, ela sobreviveu ao Fogo de 51 e representa muitas dimensões de uma mesma ancestralidade.
Por Mônica Belo
Maria Bernarda da Conceição, conhecida carinhosamente como Maria Coruja e Suindara Pataxó, nasceu em 17 de julho de 1939, na Aldeia Mãe Barra Velha, território ancestral do povo Pataxó, no extremo sul da Bahia. Em 2026 completou 87 anos e sua história se confunde com a própria história de resistência de seu povo.
Dona Maria Coruja é uma das sobreviventes do episódio de violência de 1951 que ficou marcado na memória Pataxó como Fogo de 51. Ela ainda era menina quando sua família precisou fugir em meio ao medo e à perseguição. Em uma dessas fugas, um pedaço de pau atravessou sua perna. Ferida e sem conseguir prosseguir sozinha, foi carregada nas costas por um parente.
Ela conta que a situação era tão desesperadora, e ninguém sabia para onde conseguiria fugir ou o que aconteceria no dia seguinte, que sua mãe chegou a pensar em deixá-la aos cuidados de outra família, temendo não conseguir continuar a fuga carregando uma criança ferida.
Mas aquela menina sobreviveu.
E talvez exista algo profundamente simbólico nessa história: a criança que um dia precisou ser carregada para sobreviver tornou-se uma mulher que passou a carregar consigo uma parte preciosa da memória de seu povo.
Apesar das dores que atravessaram sua trajetória, quem convive com Maria Coruja encontra uma mulher alegre, brincalhona, forte e cheia de sabedoria. Uma mulher que canta, dança, compõe, faz artesanato, benze, reza, aconselha e ensina.




Música e memória
A música está presente em sua vida desde a infância. Maria conta que antigamente as rodas faziam parte do cotidiano da Aldeia Mãe e que praticamente todos os dias se cantava roda. Foi ouvindo sua mãe, suas tias e os mais velhos que aprendeu cantigas que atravessaram gerações pela oralidade.
Ela se tornou uma das grandes referências do samba indígena Pataxó, sendo reconhecida como uma verdadeira matriarca dessa tradição e participando dos Marujos Pataxó. Conhece cantigas antigas que poucas pessoas ainda sabem, compõe músicas e mantém viva uma memória musical que não nasceu nos livros ou nas partituras: nasceu da convivência, da escuta e da transmissão entre gerações.
Foi justamente a preocupação dos mais velhos com o desaparecimento dessas memórias que ajudou a impulsionar uma das experiências mais bonitas de sua trajetória recente.
Os idosos da comunidade pediram que as antigas cantigas de roda não fossem deixadas morrer.




Marujos Pataxó
Desse desejo de transmitir às crianças aquilo que eles haviam recebido de seus antepassados nasceu parte do trabalho desenvolvido com os Marujinhos Pataxó. Dona Maria Coruja assumiu uma missão especial nesse processo. Durante mais de um ano, participou de oficinas semanais ensinando às crianças as cantigas ancestrais que havia aprendido com sua mãe, suas tias e outros parentes.
Assim, músicas guardadas durante décadas na memória de uma anciã passaram para as vozes de uma nova geração.
Parte dessas cantigas também foi registrada em uma produção musical dos Marujinhos, contribuindo para que um patrimônio que durante muito tempo dependeu exclusivamente da memória e da oralidade pudesse permanecer registrado para as futuras gerações.
Mesmo convivendo com deficiência auditiva, Maria Coruja continua cantando, ensinando e participando da vida cultural de sua comunidade. Sua presença mostra às crianças que envelhecer também pode significar tornar-se guardião de conhecimentos que nenhum dinheiro é capaz de comprar.
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Sabedoria para além da música
Maria Coruja também é benzedeira e conhecedora de práticas tradicionais de cura e espiritualidade. Fundou o Terreiro Aruanda de Maria Coruja, espaço ligado aos rezos, à cura e à conexão espiritual. Faz rezas e guias de proteção e, ao longo de sua vida, compartilhou seus conhecimentos com inúmeras pessoas.
Sua trajetória representa também a resistência pelo direito de exercer livremente a espiritualidade e as práticas tradicionais, enfrentando o preconceito e a intolerância que historicamente atingiram conhecimentos e manifestações religiosas indígenas.
Na voz dessa mulher de 87 anos estão sua mãe, suas tias, seus antepassados e tantas pessoas que vieram antes dela.
E quando os Marujinhos respondem cantando, acontece algo ainda mais bonito: a memória continua.
Maria Coruja é isso.
É memória viva.
É resistência.
É cura.
É música.
É alegria.
É ancestralidade.
